O dia seguinte
Domingo, 10 horas: ressaca moral, dúvida cabal, medo. Rolo na cama, quem dera se eu pudesse esquecer, quem dera se o domingo passasse sem que eu pensasse, mas acordei e nada pior do que acordar no dia seguinte, por que será que nós mulheres pensamos sempre no telefone que não vai tocar? Rolo novamente, olho para o meu celular: ele não vai me ligar. Não é uma pergunta é uma afirmação.
O primeiro sábado, 22 horas: companhia agradável, conversa saudável, chope gelado, corpos atraídos. Não tenho muito para onde olhar, pela primeira vez em semanas saio com um homem incrível, daqueles que se encaixam perfeitamente na minha lista de pré-requisitos (que ainda é muito grande). Ele, 30 anos, moreno, alto, bonito, empregado, motorizado, independente e mora sozinho, enfim, pacote perfeito.
Conheci o Marcelo por acaso, na verdade, foi algo bem corriqueiro mesmo. Um barzinho e algumas amigas. De repente, estou conversando com ele, nada muito sério, nada muito concreto, é aquela velha história: Qual é o seu nome? Você faz o que? E por aí. Casualmente acontece um beijo, daqueles beijos gostosos que deixam a gente bamba. Uma delícia de beijo numa pessoa interessante, o que eu quero mais da minha vida? Trocamos telefones, apesar da esperança que ainda há em mim, não guardo expectativas reais, o cara não vai me ligar. Segunda afirmação.
Olho de novo para o meu celular. Vejo se ele está funcionando, ele está. Não sei por que ainda me torturo tanto. Volto no tempo, já é o segundo domingo que passo por isso.
O segundo sábado, 21 horas, não sei o que vestir. Será que coloco minha roupa de matar ou vou com aquela mais comportada? Melhor ir normal... talvez um pouco sexy, mas não muito. Ok, calça jeans e blusinha preta. Combinamos de nos encontrar no bar, tenho pavor de homem que vem me buscar em casa, ainda mais quando não temos nada. Nesses casos, fica difícil explicar, não é um amigo, mas também não é namorado, prefiro não abalar os padrões morais de relacionamento que minha mãe formou. Saio de casa e vou encontrá-lo, devo confessar que ainda um pouco surpresa com o telefonema dele, mas confiante e com uma pontinha de “quem sabe é o cara”.
23 horas, já faz uma hora que estamos conversando. A cada minuto o Marcelo se torna mais interessante, o papo flui tão legal, que nem percebo a hora. Quando vejo já passa da meia noite. Por mais que eu queira me manter sensata e racional é difícil. Segunda confissão: não sou boa em me enganar. Concentro-me no papo e deixo os lábios macios dele não me hipnotizarem, descobrimos afinidades, rimos juntos... Duas horas depois, sem que eu tivesse planejado e fugindo a todas as expectativas, resolvo seguir meus impulsos e dar vazão ao meu desejo.
Um minuto de reflexão: por mais que eu tenha estabelecido uma meta, não ir para a cama antes do terceiro encontro - não por questões de puritanismo ou por puro joguinho de gato e rato -, mas por querer que o sexo seja conseqüência e não causa.
Não vou para a cama com o Marcelo porque ele é “o cara”, mas porque quero me permitir a viver o momento. Quando seguimos no mesmo carro para a casa dele, não tenho em mente nada, sei que vai acontecer e no fundo, mesmo sem ter planejado, eu quero. E foi maravilhoso e natural. Na hora resolvi relaxar e aproveitar sem encanações. Sai da casa dele cheia de esperanças, por que somos tão tolas quando encontramos um homem bacana? A gente se despede e volto para casa ainda suspirando, querendo que a gente volte a se encontrar. Sei que não posso depositar tanta confiança, sei que ele pode ser uma furada gostosa, mas também sei que nessas horas não consigo apenas fazer uso da minha cabeça.
No caminho para casa percebo, ele não falou que iria me ligar, ou que iríamos nos encontrar de novo. Antes que eu comece a me tortura paro de pensar nisso. Ele não falou, mas isso também não quer dizer nada. Sinto-me estranha, como é duro ter sexto sentido, e pior, como é duro saber como são os homens. Resolvo pensar em outras coisas, na verdade, relembro todos os momentos, todos os sorrisos e os beijos trocados.
Domingo, 11 horas. Finalmente resolvo levantar, cheguei em casa às 5 horas da manhã, ainda com o cheiro dele na minha pele. Tomo um café, relaxo no sofá, meus sobrinhos chegam e brinco com eles. Depois do almoço casa vazia. Olho para meu celular e nada, nem uma mensagem nem telefonema. Começo a pirar, ele não vai me ligar. Será que ele não gostou de mim? Será que fiz alguma coisa errada? Será que ele não vai me ligar só porque fui para a cama com ele? Entro cada vez mais nesse processo destrutivo de tentar achar um porquê. Procuro respostas as perguntas que sei que nunca serão respondidas e me fecho em um sentimento que não é culpa, e sim medo de rejeição.
Assisto Faustão, tento pensar em outras coisas, então, ligo para minhas amigas, quem sabe elas não tenham respostas. Prefiro não comentar nada, para não gerar mais polêmica e levantar mais incertezas. Olho de novo para o meu celular, penso como seria bom que ele ligasse só para dizer um oi, ou para perguntar sobre como foi voltar sozinha para casa. Na verdade, queria que ele me ligasse e falasse para ir até a casa dele, ou para quem sabe um cinema. É nessa hora, que percebo o quanto ando carente, o quanto estou sozinha, o quanto meu coração anda vazio e como posso ser ingênua alimentando mais coisas do que há. Mas por que ele não liga? Ele não liga porque ele não quer. E por que ele não quer? Por mais que eu queira fugir de uma resposta é ela que sempre vem: Ele não liga porque você já foi para a cama com ele.
No fim da noite, resolvo me reorganizar, lembro de todos os relacionamentos pelos quais passei. Lembro dos tantos foras, dos tantos domingos que já foram de expectativa e começo, enfim, a voltar ao meu normal. Desde o meu último relacionamento, coloquei na cabeça uma série de coisas que não admitiria mais.
Uma lista
- Não criar expectativas além da conta;
- Não ser tão sentimental;
- Não tentar estabelecer um primeiro contato depois da primeira noite;
- Não pensar se ele vai me ligar;
- E acima de tudo, se ele não ligar, não encanar. Se ele não ligou porque foi para a cama comigo, sinal de que ele ainda está cheio de valores machistas encalacrados. Se ele não ligou porque qualquer outro motivo, é porque ele é um babaca insensível. Não há desculpas para um homem não ligar no dia seguinte.
No final da noite estava cansada, seja qual for o motivo para ele não me ligar, é um motivo dele, que não servirá para mim. Não irei procurar respostas, não quero transformar minha vida num momento de tortura. Sei o que eu quero, e o homem que eu quero não é um cara que vai para cama comigo e no dia seguinte nem lembra que eu existo. Esse homem não é aquele que vai pensar qualquer coisa de mim só porque também quis ir mais além. Sei que tentar ser racional é difícil, ainda mais com um coração cheio de espaço para ser preenchido, mas sei também que não quero preenchê-lo com um qualquer (mesmo que esse qualquer pareça perfeito). Bobos são esses homens, que não enxergam nas mulheres inteligentes e resolvidas, mulheres em potencial.
Lutamos todos os dias para sermos: um pouco mais independente, um pouco mais respeitadas nessa sociedade ainda muito patriarcal (fujo da palavra machismo). Sou mulher e tenho minha carreira, minha vida e sou feliz por todas as minhas conquistas. Luto todos os dias para que as pessoas me aceitem pelo que eu sou, por aquilo que acredito e repito diariamente que o mais importante é saber quem eu sou, por isso não preciso de rótulos, afinal, sou apenas uma mulher que sabe bem o que quer e que vai em busca disso. Se os meus atos são ainda condenáveis para os homens prefiro ficar sozinha. Eu sei, ele não vai me ligar, mas também sei, que isso pode até me abalar hoje, talvez até amanhã, no entanto, a vida continua e consigo sempre me reerguer.
23 horas toca meu celular. Minhas pernas tremem, meu coração acelera, minhas mãos gelam. Deixo o telefone tocar mais duas vezes respiro fundo. “Oi sou eu”, pausa para respirar. “oi Beto”... não vou dizer que não fiquei decepcionada, nem posso ser tão mentirosa assim comigo, mas pela primeira vez em meses não desejei que fosse o Beto.