Crônicas de Mulheres
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
Encontros tinder: O homem de dois corações.
Mas eis aqui o mais novo coração apaixonado... não que isso seja de fato totalmente ruim, mas na atual situação é sem cabimento.
Foram cinco meses, de encontros furtivos, deliciosos, cheio de carinhos, como o pensamento mais racional possível, mas e agora que o fim chegou... como não sentir o coração apertado dentro do peito, como saber lidar com a saudade, como administrar a perda? Como ser racional agora? Não sei responder, só sinto e sinto muito que isso tudo tenha acontecido.
Lembro que da primeira vez que conversamos, ele pareceu tão sincero, amoroso, tão interessante que era impossível não querer falar com ele todos os dias... a gente se entendia, se apoiava e principalmente curava a carência um do outro.
Como esquecer ele aparecendo num domingo a noite de repente na minha porta, depois de um dia de choro? Lembro do primeiro carinho, trocado meio sem jeito, meio sem graça... naquela noite falei, que ele era perigoso, pois era um cara apaixonante e que não era aquilo que eu estava disposta a viver... ele apenas riu, disse que era apenas para eu viver.
Era um turbilhão, sentimentos antigos e novos, o cheiro dele me levava para lugares em que eu queria estar, ele era o novo, o inesperado, era a reconquista da minha autoestima, depois de anos vivendo uma relação de amor e ódio. Ele era a esperança que eu poderia novamente me amar e ser amada.
As conversas e os telefonemas eram ternos, cheios de amizade, conversávamos sobre o dia, e eram emoticons para cá e para lá. Muitos corações e carinhas apaixonadas.
Não percebi quando nem como, simplesmente me envolvi e deixei me envolver... cada dia que passava sem ter contato era uma tortura de horas, falta mesmo de ter com quem compartilhar o dia, tão longo e estressante.
E assim eu fui me deixando levar, pelas noites e momentos de carinho, afeto, tesão e de muita cumplicidade, ele me contava tudo e eu meio sem saber no que acreditar se aquilo tudo era real. Aprendemos a nos conhecer, a entender um ao outro meio sem saber.
Sim, foram cinco meses lutando para não se apaixonar totalmente, tentando manter o controle, e não deixar que tudo aquilo virasse algo ainda mais sem propósito. Eu tinha plena consciência desde o começo, que não tínhamos futuro, que assim como um paciente terminal... eu via aos poucos o fim. Todo encontro poderia ser o último...
A paixão agonizava e a cada momento toda aquela tortura parecia interminável, no fundo, não queria que acabasse, eu queria apenas ficar ali para sempre. Mas o tempo inimigo dos amantes estava passando rápido e eu sem saber o que fazer.
Ontem, nosso último e maravilhoso encontro... cheio de carinho e de tristeza, cheio de paixão e desesperança, não tínhamos mais tempo... eu não conseguia mais ser racional... o último beijo e o último abraço... sentei no carro depois de deixá-lo e chorei por trinta minutos, prometi que não voltaria atrás e que não dava mais para ser a amante, sim ela estava para vir morar definitivamente com o marido, e tudo que eu não queria era destruir uma família... não queria separá-los, passei todo esse tempo falando que ele deveria tentar e não desistir, contrariando toda minha vontade de dizer larga tudo e fica comigo. Sei que não fiz errado, que resolvi bater em retirada, antes que a artilharia pesada chegasse, me entreguei, fui prisioneira nessa guerra, e assim que tive oportunidade fugi e hoje sei que o meu coração está em algum campo de refugiado e ficará lá por tempo indeterminado.
Liguei o carro e rodei mais uma hora sem rumo... ela estava vindo e eu indo embora de vez.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
Encontros tinder: O taradão de meia idade
Ela simplesmente se arrumou, com casualidade, não queria parecer ansiosa nem sexy demais... usou pouca maquiagem e passou perfume estrategicamente.
Era um dia fresco, dos raros daquele verão. O sol se punha devagar e o cheiro dos corpos se misturavam no ar... cheiro de gente, cheiro de conquista. Ela pensou mais uma vez olhou no relógio, ainda estava cedo, ela nunca se atrasava, achava falta de comprometimento com o encontro, sentou numa mesa no canto da padaria, a mesma que frequentava todos os dias e que conhecia cada funcionário. Achou aquilo muito prudente e gostou quando ele consentiu.
Pediu um café e olhou novamente para o relógio, sim ele estava atrasado... a única foto que tinha visto dele era apenas de rosto, ele não era feio, tinha olhos verdes, um sorriso bonito e um nariz bem feito. O pouco que haviam conversado pelas mensagens no celular ele parecia um homem já com a vida feita, tinha um bom emprego, era divorciado, já tinha um filho. Sim, ela estava cheia de expectativas.
Olhou no celular e achou melhor começar ler qualquer tipo de notícia para se distrair, tinha que se acalmar, não queria parecer nervosa. O café chegou. Pediu açúcar, ela nunca pedia açúcar. Adoçou pouco e deu um primeiro gole. Esperou. Respirou. Olhou mais uma fez para o relógio... estava então atrasado dez minutos. Ela pensou, quem se atrasa em um primeiro encontro? Mas atrasos acontecem.
Começou a ler as notícias sem muita atenção ou concentração. De repente pelo canto do olho ela percebe uma grande sombra se aproximando, tum tum tum. Respirou.
Eles se cumprimentaram, meio sem jeito, meio sem graça, mas ela ainda tinha algum tipo de esperança estranha crescendo dentro dela.
Ele sentou, não de frente para ela e sim de lado encostando as costas na parede. Ele balançava as pernas sem parar, ela acho ele mais nervoso e ansioso que ela. As primeiras impressões foram horríveis, mas ela ainda queria conversar, não poderia ser tão ruim assim.
Sim, foram piores, quanto mais ele abria a boca, menos esperança ela tinha... ela apenas sorria sem prestar atenção naquele discurso meio vulgar, meio sem noção. Ela se perguntava a cada 3 segundos se alguém caía naquela conversa tão chula e baixa.
Ela tentou várias vezes ter uma conversa de gente normal, mas ele a constrangia com perguntas pessoais e sexuais. Ela apenas sorria e dizia que não iria responder.
Ele balançava mais as pernas. Quando ele se levantou para pedir o café dele no balcão ela pensou em sair correndo... mas para sair teria que passar por ele, pensou que poderia ter escolhido uma mesa melhor.
Foram trinta minutos, nesse jogo de tentar falar coisas sérias e amenas, mas sem sucesso. O cara era simplesmente nojento, e a única coisa que ela pensou foi, como ele conseguia arrumar mulher.
Quando deu o horário dela, ela apenas se levantou, e disse que precisava ir. Ele falou que iria acompanhá-la. Fazer o que, ela não conseguia ser indelicada, sua alma era generosa e tinha um senso de educação extremo.
Foram para o caixa, ele não se ofereceu para pagar, na verdade, ficou mais atrás dela, o caixa olhou e perguntou duas vezes se estavam juntos e se era para cobrar juntos, ele não manifestou. O caixa que era velho conhecido, apenas olhou meio desconfiado, como não teve resposta do cara, ela respondeu que era separado. Sim, ela pagou a própria conta, não que isso fosse um problema, mas o fato dele nem oferecer para pagar foi ainda mais decepcionante.
Ela se despediu, ele roubou um beijo, ela não recusou. Ele perguntou se eles se veriam de novo e ela desconversou. Ele, então, despediu-se rispidamente e ela não ficou ofendida, na verdade, olhou com gratidão.
Ele foi caminhando e ela olhou bem aquele homenzarrão de meia idade, vestido com uma camiseta de manga comprida encardida e desbeiçada, de bermuda cinza de brim e tênis. E pela última vez ela se perguntou, como ele tinha conseguido casar e ter filho.
Nunca mais se falaram ou se viram... no fim da tarde ela se sentia tão decepcionada e até meio suja. Voltou para casa, tomou um banho, repetiu cada cena daquela tarde em pensamento, agradeceu por não estar tão carente, se deitou e foi a caça de novo...
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
O dia seguinte
Domingo, 10 horas: ressaca moral, dúvida cabal, medo. Rolo na cama, quem dera se eu pudesse esquecer, quem dera se o domingo passasse sem que eu pensasse, mas acordei e nada pior do que acordar no dia seguinte, por que será que nós mulheres pensamos sempre no telefone que não vai tocar? Rolo novamente, olho para o meu celular: ele não vai me ligar. Não é uma pergunta é uma afirmação.
O primeiro sábado, 22 horas: companhia agradável, conversa saudável, chope gelado, corpos atraídos. Não tenho muito para onde olhar, pela primeira vez em semanas saio com um homem incrível, daqueles que se encaixam perfeitamente na minha lista de pré-requisitos (que ainda é muito grande). Ele, 30 anos, moreno, alto, bonito, empregado, motorizado, independente e mora sozinho, enfim, pacote perfeito.
Conheci o Marcelo por acaso, na verdade, foi algo bem corriqueiro mesmo. Um barzinho e algumas amigas. De repente, estou conversando com ele, nada muito sério, nada muito concreto, é aquela velha história: Qual é o seu nome? Você faz o que? E por aí. Casualmente acontece um beijo, daqueles beijos gostosos que deixam a gente bamba. Uma delícia de beijo numa pessoa interessante, o que eu quero mais da minha vida? Trocamos telefones, apesar da esperança que ainda há em mim, não guardo expectativas reais, o cara não vai me ligar. Segunda afirmação.
Olho de novo para o meu celular. Vejo se ele está funcionando, ele está. Não sei por que ainda me torturo tanto. Volto no tempo, já é o segundo domingo que passo por isso.
O segundo sábado, 21 horas, não sei o que vestir. Será que coloco minha roupa de matar ou vou com aquela mais comportada? Melhor ir normal... talvez um pouco sexy, mas não muito. Ok, calça jeans e blusinha preta. Combinamos de nos encontrar no bar, tenho pavor de homem que vem me buscar em casa, ainda mais quando não temos nada. Nesses casos, fica difícil explicar, não é um amigo, mas também não é namorado, prefiro não abalar os padrões morais de relacionamento que minha mãe formou. Saio de casa e vou encontrá-lo, devo confessar que ainda um pouco surpresa com o telefonema dele, mas confiante e com uma pontinha de “quem sabe é o cara”.
23 horas, já faz uma hora que estamos conversando. A cada minuto o Marcelo se torna mais interessante, o papo flui tão legal, que nem percebo a hora. Quando vejo já passa da meia noite. Por mais que eu queira me manter sensata e racional é difícil. Segunda confissão: não sou boa em me enganar. Concentro-me no papo e deixo os lábios macios dele não me hipnotizarem, descobrimos afinidades, rimos juntos... Duas horas depois, sem que eu tivesse planejado e fugindo a todas as expectativas, resolvo seguir meus impulsos e dar vazão ao meu desejo.
Um minuto de reflexão: por mais que eu tenha estabelecido uma meta, não ir para a cama antes do terceiro encontro - não por questões de puritanismo ou por puro joguinho de gato e rato -, mas por querer que o sexo seja conseqüência e não causa.
Não vou para a cama com o Marcelo porque ele é “o cara”, mas porque quero me permitir a viver o momento. Quando seguimos no mesmo carro para a casa dele, não tenho em mente nada, sei que vai acontecer e no fundo, mesmo sem ter planejado, eu quero. E foi maravilhoso e natural. Na hora resolvi relaxar e aproveitar sem encanações. Sai da casa dele cheia de esperanças, por que somos tão tolas quando encontramos um homem bacana? A gente se despede e volto para casa ainda suspirando, querendo que a gente volte a se encontrar. Sei que não posso depositar tanta confiança, sei que ele pode ser uma furada gostosa, mas também sei que nessas horas não consigo apenas fazer uso da minha cabeça.
No caminho para casa percebo, ele não falou que iria me ligar, ou que iríamos nos encontrar de novo. Antes que eu comece a me tortura paro de pensar nisso. Ele não falou, mas isso também não quer dizer nada. Sinto-me estranha, como é duro ter sexto sentido, e pior, como é duro saber como são os homens. Resolvo pensar em outras coisas, na verdade, relembro todos os momentos, todos os sorrisos e os beijos trocados.
Domingo, 11 horas. Finalmente resolvo levantar, cheguei em casa às 5 horas da manhã, ainda com o cheiro dele na minha pele. Tomo um café, relaxo no sofá, meus sobrinhos chegam e brinco com eles. Depois do almoço casa vazia. Olho para meu celular e nada, nem uma mensagem nem telefonema. Começo a pirar, ele não vai me ligar. Será que ele não gostou de mim? Será que fiz alguma coisa errada? Será que ele não vai me ligar só porque fui para a cama com ele? Entro cada vez mais nesse processo destrutivo de tentar achar um porquê. Procuro respostas as perguntas que sei que nunca serão respondidas e me fecho em um sentimento que não é culpa, e sim medo de rejeição.
Assisto Faustão, tento pensar em outras coisas, então, ligo para minhas amigas, quem sabe elas não tenham respostas. Prefiro não comentar nada, para não gerar mais polêmica e levantar mais incertezas. Olho de novo para o meu celular, penso como seria bom que ele ligasse só para dizer um oi, ou para perguntar sobre como foi voltar sozinha para casa. Na verdade, queria que ele me ligasse e falasse para ir até a casa dele, ou para quem sabe um cinema. É nessa hora, que percebo o quanto ando carente, o quanto estou sozinha, o quanto meu coração anda vazio e como posso ser ingênua alimentando mais coisas do que há. Mas por que ele não liga? Ele não liga porque ele não quer. E por que ele não quer? Por mais que eu queira fugir de uma resposta é ela que sempre vem: Ele não liga porque você já foi para a cama com ele.
No fim da noite, resolvo me reorganizar, lembro de todos os relacionamentos pelos quais passei. Lembro dos tantos foras, dos tantos domingos que já foram de expectativa e começo, enfim, a voltar ao meu normal. Desde o meu último relacionamento, coloquei na cabeça uma série de coisas que não admitiria mais.
Uma lista
- Não criar expectativas além da conta;
- Não ser tão sentimental;
- Não tentar estabelecer um primeiro contato depois da primeira noite;
- Não pensar se ele vai me ligar;
- E acima de tudo, se ele não ligar, não encanar. Se ele não ligou porque foi para a cama comigo, sinal de que ele ainda está cheio de valores machistas encalacrados. Se ele não ligou porque qualquer outro motivo, é porque ele é um babaca insensível. Não há desculpas para um homem não ligar no dia seguinte.
No final da noite estava cansada, seja qual for o motivo para ele não me ligar, é um motivo dele, que não servirá para mim. Não irei procurar respostas, não quero transformar minha vida num momento de tortura. Sei o que eu quero, e o homem que eu quero não é um cara que vai para cama comigo e no dia seguinte nem lembra que eu existo. Esse homem não é aquele que vai pensar qualquer coisa de mim só porque também quis ir mais além. Sei que tentar ser racional é difícil, ainda mais com um coração cheio de espaço para ser preenchido, mas sei também que não quero preenchê-lo com um qualquer (mesmo que esse qualquer pareça perfeito). Bobos são esses homens, que não enxergam nas mulheres inteligentes e resolvidas, mulheres em potencial.
Lutamos todos os dias para sermos: um pouco mais independente, um pouco mais respeitadas nessa sociedade ainda muito patriarcal (fujo da palavra machismo). Sou mulher e tenho minha carreira, minha vida e sou feliz por todas as minhas conquistas. Luto todos os dias para que as pessoas me aceitem pelo que eu sou, por aquilo que acredito e repito diariamente que o mais importante é saber quem eu sou, por isso não preciso de rótulos, afinal, sou apenas uma mulher que sabe bem o que quer e que vai em busca disso. Se os meus atos são ainda condenáveis para os homens prefiro ficar sozinha. Eu sei, ele não vai me ligar, mas também sei, que isso pode até me abalar hoje, talvez até amanhã, no entanto, a vida continua e consigo sempre me reerguer.
23 horas toca meu celular. Minhas pernas tremem, meu coração acelera, minhas mãos gelam. Deixo o telefone tocar mais duas vezes respiro fundo. “Oi sou eu”, pausa para respirar. “oi Beto”... não vou dizer que não fiquei decepcionada, nem posso ser tão mentirosa assim comigo, mas pela primeira vez em meses não desejei que fosse o Beto.
sábado, 11 de julho de 2009
“Ser” mulher
Tudo começou há duas semanas, era para ser mais um dia típico da minha vida: acordar cedo e ir para o trabalho, talvez me estressar olhando para a carinha de coala bem resolvida da minha chefe. Até aí tudo dentro da minha rotina, mas no fim do dia tive que sair para comprar o presente de aniversário de uma amiga, que completa mais um aninho de vida no sábado. Entrei em várias lojas de roupas, bijuterias e bolsas e, por mais um ano, fico tentando dar um presente mais significativo do que necessário. Conclusão: comprei uma bolsa - ela adora bolsas -, mesmo que eu queira lutar contra esses presentes, no final sempre acabo dando o óbvio, ou pelo menos aquilo que acho que será mais funcional.
Foi sair da loja e entrar no carro que uma onda avassaladora me atingiu. Lembrei de quando eu e ela ainda nos dávamos bonecas e recordei de tantas brincadeiras e de tantas conversas jogadas ao vento, de como crescemos juntas e de quanto tempo a gente já se conhecia. E então, foi que me dei conta que a conheço há mais de duas décadas, que somos amigas, confidentes e companheiras desde que éramos crianças, e por mais que eu soubesse isso somente naquele exato momento me dei conta de como os anos passaram por nós. Respirei fundo procurando não pensar nos anos, mas como não pensar neles.
No entanto, não eram os anos que me impressionava, mas uma pergunta: quando nos tornamos mulheres? No começo parecia apenas uma pergunta tola, porém sem resposta aparente.Foi aí veio a segunda onda avassaladora que me atingiu... e um novo questionamento surgiu ainda mais forte e perturbador: como definir o “ser” mulher? Será que ter um pouco mais de um quarto de século é resposta! Não... não é isso que faz de mim nem a qualquer outra mulher ser mulher. Liguei o carro, dirige quase que sem rumo procurando dentro de mim o caminho, talvez uma chave para descobrir o que é ser.
Li há anos um livro de Clarice Lispector, em que a personagem principal não sabia “ser”, será que eu também não sei? Enquanto minha cabeça tentava chegar há uma resposta lógica, meu coração só sentia uma angustia crescente. Será que estou “sendo”? Será que ser mulher é acordar todos os dias e ir trabalhar, ter contas a pagar, fazer sexo com quem desejar e mesmo assim só pensar em se casar e ter filhos? Antigamente, no tempo de nossas mães era mais fácil, pois elas tinham nitidamente uma definição (não dada por elas, mas acatada por elas) do que era ser mulher, ou de quando se tornavam uma. Tal título, se é que podemos assim falar, era apenas recebido quando elas se casavam, a vinda dos filhos somente reafirmava a condição perante a sociedade. Sociedade machista ou não, a verdade é essa, sua mãe e a minha se tornaram mulheres quando encontraram seus pais e se casaram.
Longe de mim, querer fazer um estudo antropológico do assunto, mas infelizmente não pude me abster dos fatos anteriores à modernidade. Até porque de alguma forma carregamos dentro de nós uma grande parcela deste passado que herdamos, e é por isso que hoje nos perguntamos ainda o que é ser mulher, afinal de certa forma perdemos pelos anos essa definição, mas ainda não criamos outra.
Vou poupar os sarcasmos e as ironias, poderia rir ou quem sabe fazer uma piada disso tudo, mas não consegui, e até agora não tenho conseguido. Comecei a guiar o carro automaticamente até em casa, não tinha mais espaço para qualquer tipo de pensamento que não fosse esse: como é que podemos nos definir mulher, se nem sabemos ao certo o que é isso? Enfim, estava no doce aconchego do lar, no meu meio, onde sempre seria a filha. Não, não quero ser simplista, nem gosto de não terminar raciocínios, mas depois de um dia de trabalho nada melhor do que assistir tv e não pensar mais em nada.
Já na hora de dormir, não pude mais fugir. Puxei pela memória os últimos dez anos e então revi muitas coisas que eu havia esquecido: a primeira vez que saí a noite, o meu primeiro porre e a primeira ressaca, meu primeiro cigarro, a primeira paixão, a primeira vez que fiz sexo, minhas primeiras decepções amorosas, minha formatura, o dia do vestibular, a primeira noite de sexo sem amor, as festas da faculdade, os amigos malucos deixados pelo caminho, o namoro de anos que não deu certo, enfim tudo até chegar aqui. Foi em algum momento nesses dez anos que me tornei mulher, ou foi durante esses tantos anos que fui, muitas vezes por caminhos tortuosos, me tornando uma fêmea adulta de Homo sapiens.
Definição do dicionário: mulher, s. f. Pessoa do sexo feminino; pessoa do sexo feminino depois da puberdade (opõe-se a menina); essa pessoa quando casada; esposa; senhora.
Agora pasmem, definição do dicionário 2: homem, s. m. animal racional; ser humano; indivíduo adulto do sexo masculino; varão; indivíduo enérgico, corajoso.
Perceberam? Até no dicionário ser mulher está relacionada ao casamento. Depois me acusam de ser feminista, mas convenhamos, enquanto somos a “pessoa quando casada”, eles são enérgicos e corajosos! Quem definiu isso? Somos nós que engordamos, nos enchemos de estrias, agüentamos nove meses de geração, os parimos, os amamentamos (deixando com orgulho nossos peitos caírem) e os agüentamos até que uma trouxa resolva se casar com eles, para enfim, transferimos o fardo a elas. E apesar disso tudo não somos por definição lingüística: “corajosas”. Enfim, não foi o dicionário que conseguiu me livrar de tantas dúvidas.
Tentei então fazer uma lista de coisas que eu achava que me tornavam mulher:
1. Ter útero, ovário, menstruação, hormônios, etc... Biologicamente é fácil definir.
2. Ter mais de 21 anos; ter feito sexo (com mais homens que minha mãe sonha, mas com um número infinitamente menor do que minha tia puritana imagina);
3. Ter emprego; ter contas; ser responsável pelos meus atos;
4. Ter TPM; ter que fazer papa Nicolau anualmente, ter que tomar pílulas;
5. Não gostar mais de Xuxa, Chaves e de brincar de bonecas (não sobra tempo!);
6. Não ter paciência de ficar só para beijar; só pensar em relacionamento sério e duradouro;
7. Pensar em comprar: bolsas, sapatos, roupas, perfumes... e ralar para pagar tudo sozinha;
8. Pensar em homens reais;
9. Pensar em casar com eles e ter filhos inteligentes.
10. Comprar camisinha na farmácia, teste de gravidez e KY.
11. Sair para jantar e rachar a conta; ir ao motel e rachar também!
12. Ligar para a amiga e falar do divórcio;
13. Não parar de pensar em celulite, estrias e no peso (que sempre é maior do que a gente desejaria);
14. Ser feminina; ser forte; ser corajosa; e ainda chorar quando ver “O casamento do meu melhor amigo”.
15. Querer ser mãe e nos dedicar aos filhos.
Poderia ter colocado mais um monte de itens, mas o sono me pegou e não pensei no assunto. Talvez porque não tenha me contentado, ou talvez pelo contrário. O fato é que naquele momento tudo aquilo não passava de neurose, ou de pura filosofia barata. Aquilo que não definimos, definido está em algum lugar, mas por mais que eu me pergunte nunca vou conseguir saber quando é que foi que me tornei mulher. Dormi e quando acordei no dia seguinte tinha tantas coisas reais para pensar, que acabei me esquecendo.
Duas semanas se passaram, e agora eu completava mais um ano de vida. Infelizmente cresci e mesmo que ainda não tenha definido o que é ser mulher, sei que já o sou.
terça-feira, 7 de julho de 2009
O telefone
No fim das contas, acabei ficando escrava do meu celular, pois não carrego mais relógio, agenda ou câmera digital, tudo que preciso quando saio é esse pequeno e moderno aparelho. Porém, não sou daquelas viciadas em conversar longas pelo fone, converso sempre o necessário (e isso não incluí uma “fossa” de amiga, que pode demorar de uma hora ou até mais, isso depende da canalhice do namorado e de quanto ela anda sensível, graças a Deus ultimamente essas ligações andam ficando raras no meu meio, não porque todas andam de bem com os seus relacionamentos, mas porque estamos vivendo uma época de estiagem amorosa!), enfim celular é só em casos necessários, e ficar numa fila gigante sem perspectiva de fim é um desses casos.
Outro dia esqueci meu celular em casa, sabe como é, ir dormir tarde por causa da internet (você vai só olhar seus e-mails, então liga o msn, que puxa uma entradinha no Orkut, quando você percebe não conseguiu responder os e-mails, mas respondeu todos os “scraps”, entrou na página do seu ex e da atual namorada dele, enfim, termina a noite arrasada e promete que nunca mais irá fazer isso, até a noite seguinte!), mas continuando, fui dormir tarde, quando meu celular-despertador tocou desliguei dormindo, 10 minutos depois novamente o mesmo processo de toca e desliga, isso acontece mais dois vezes, até que finalmente acordo 40 minutos atrasada! Enfim, acabei deixando meu celular em casa, paciência, não vou morrer só porque meu celular não está comigo.
Uma hora de abstinência, sei que posso resistir mesmo me sentindo um pouco nua. Preciso do telefone da minha depiladora, entro num pequeno desespero, preciso marcar uma hora, pois já estou quase um macaquinho e não terei tempo se não for hoje. O que fazer? Relaxo, voltarei aos métodos arcaicos – a gilete. Merda, se o Beto me ligar para sair logo essa semana? Eu não vou sair toda empipocada por causa de gilete, vai que ele queira finalmente ultrapassar a barreira de amigos que se atraem para um irresistível caso? Respiro fundo... na hora do almoço dou uma escapadinha e vou buscar meu celular.
O telefone da minha mesa toca. “Alô filha, você esqueceu seu celular, ele já tocou umas três vezes, devo atender?”, três segundos para pensar e responder, fora a vontade incontrolável de pedir para ela me socorrer trazendo meu amiguinho até mim. Respire, pense e responda. E se for o Beto? “Não mãe, não precisa. Passo aí e pego na hora do almoço.”, uma pausa “então filha, bom dia para você”, ela desliga, e eu nem perguntei se ela podia ver quem me ligou. Merda, quem será que me ligou? No entanto, agora só faltam duas horas, preciso e vou resistir. Não deve ser o Beto, ele está trabalhando agora. Talvez alguma amiga em perigo, não, todas tem o meu número do trabalho e também a maioria me manda e-mail nesse horário. Só pode ser o Sr. Armando, tentando me caçar para resolver algum pepino, se for ele estou perdida, meu Deus! E se for urgente? Serei despedida. Ligo para minha casa.
“Mãe, sou eu. Vê para mim o número que me ligou fazendo o favor”, ouço o barulhinho das teclas do meu celular, soam como música regida pelos dedos da minha mãe” Filha o número está como não registrado.”, e agora? “Todas as três chamadas são do mesmo número?”, responda que não, vai mãe me ajuda. “Todas as chamadas são de números sem identificação.”, agradeço desolada colocando o fone no gancho. Quem será que anda me procurando? E se for o cara de sábado? Ele pegou meu telefone, não pode ser justo ele que eu não me interessei me ligar. Só pode ser ele, mas que azar pelo menos se fosse o Beto.
Só mais uma hora e darei fim a essa tortura. Meu telefone toca de novo, é a minha chefe com cara de coala. “Oi, eu preciso que você ligue para o Sr. Armando, ele ficou de entregar um contrato e até agora não retornou.”, ocupação, era isso que eu precisava, busco na minha agenda de papel o número do homem do pepino, adivinhem, não encontro, essa minha mania de registrar tudo só no celular. Entro em pânico, respiro fundo e procuro nos e-mails e encontro o telefone. Nada como a internet nessas horas de aperto. Como eu amo toda essa tecnologia!
Agora faltam apenas dez minutos para o almoço. Organizo minha mesa, o telefone toca de novo. “Oi sou eu, a gente pode almoçar juntas?”, era uma amiga, e agora? Recuso por causa do meu celular? “O Leo me ligou agora falando para a gente ir conversar, tentar resolver as coisas. Não sei o que fazer e preciso conversar com você.”, não tenho como recusar. Por que as amigas são tão importantes? Porque são elas que nos amparam quando o ex, que ainda amamos, nos liga para conversar depois de meses de silêncio. Crio então um plano B e combino de almoçar perto da minha casa. Tem que dar tempo. Contrariando minhas expectativas tudo dará errado, é a lei de Murphy!
Meio dia e dez, chego ao restaurante. Minha amiga ainda não chegou, fico tentada a pedir um refrigerante, mas lembro dos últimos dois meses que ando lutando contra as celulites que avançam rapidamente pelo meu bumbum. Um suco. Com açúcar ou adoçante? Claro que com adoçante! Seria ótimo, mas peco e peço com açúcar. Vamos deixar de ser neuróticas, eu odeio adoçante e não é o suco que irá me engordar, e o que são algumas calorias a mais? O homem que quero não se importa se eu engordo ou se tenho celulite, ele tem que gostar de mim pelo meu papo, inteligência e senso de humor. Quem eu quero enganar? Arrependo-me por ter pedido com açúcar, mas pelo menos o suco estava bom. A vida é feita de pequenos prazeres e um deles é tomar suco com açúcar!
Quinze minutos depois ela ainda não chegou. Será que aconteceu alguma coisa? Procuro automaticamente na bolsa meu celular. Merda. E agora? Passa mais dez minutos ela ainda não chegou e não dá para esperar mais, me sirvo e começo a almoçar sozinha. Fico pensando o que teria acontecido. Talvez ela tenha apenas se atrasado, ou tenha tido outro compromisso, será que ela sofreu algum acidente. Começo a ficar paranóica, por isso, tento apenas me concentrar na comida. Olho para o meu prato recheado de salada e de um frango grelhado, quem eu quero enganar? Odeio essa alimentação saudável e essa dieta, fico com vontade de levantar e pegar um pedaço suculento de lasagna. Quanto tempo faz que não como massa? Sua burra semana passada, quando saiu com o Beto para comer pizza! Resolvo ser persistente e não pegar um pedaço de lasagna, mas peço sobremesa. Um pedaço de céu em forma de torta alemã. Segundo pequeno prazer do dia: comer lentamente sentindo o chocolate derretendo na boca e acumulando no quadril.
Agora, tenho só dez minutos para pegar meu celular e voltar para o trabalho, sem esperanças de saber o motivo do bolo da amiga confusa. Infelizmente, o caminho entre o restaurante-casa-trabalho é recheado de semáforos. Vou me atrasar de novo. Resolvo deixar o celular para trás e ir direto para o trabalho. Sobreviveu-se a essa manhã, sobrevive-se ao resto do dia. O Beto não vai me ligar e, se ele não ligar, também diminui a necessidade de me depilar. O importante agora é não chegar atrasada duas vezes no mesmo dia. Como é difícil tomar decisões centradas.
Chego a tempo ao escritório. A tempo de ver: a cara de coala com seu sorriso politicamente correto, a estagiária meiguinha e a minha mesa se enchendo de papéis. O mundo maravilhoso do trabalho, cheio de fantasia e empolgação. E apesar dessa maravilha, só penso no meu celular. A tarde passa com o mesmo jeitão da manhã. Ou seja, com momentos de angustia, desespero, paranóia, mas também de pequenos prazeres vividos, um elogio da chefe, uma pendência resolvida, um trabalho bem feito e claro, no final de tudo sobrevivi sem meu celular. Quando terminou o dia, eu me senti orgulhosa por ter conseguido, por não ter enlouquecido e determinei que a partir desse dia não seria tão dependente desse aparelhinho. É regra a gente se enganar quando estamos orgulhosas.
Seis e meia, chego enfim em casa. Só tenho um pensamento, onde está meu celular. Saio correndo, mal cumprimento minha mãe, a tortura do dia vai acabar. Ele estava lá, sozinho entre meus pertences, tão desolado como eu, tenho a impressão que se ele pudesse falar, falaria que também sentiu minha falta, que não quer mais ser esquecido. Vejo as ligações não atendidas, saldo: 6 ligações não identificadas, 2 ligações da amiga confusa e mais 3 chamadas de trabalho. Sem Beto! Quem sabe nas mensagens?! Saldo final das mensagens: 1 da amiga perdida dizendo que não iria almoçar, pois teria que trabalhar mais um pouco, e uma da operadora de telefonia. Decepção e curiosidade, quem será que me ligou de manhã? Seja lá quem for terá que me ligar de novo.
Último pequeno prazer do dia: “alô, oi sou eu!”, pausa... respiro fundo o número não é conhecido mas a voz, olho a hora onze horas, tremo, um fio de esperança, era o Beto. “Oi, eu sei”, burra! Ele vai saber que você esperou por esse telefonema o dia todo. Um riso, “te liguei hoje de manhã umas 5 vezes, você não atendeu, aconteceu alguma coisa?”, respiro e explico o esquecimento. “liguei”... uma pausa, vai fala!!! “então liguei para perguntar se você pode me dar o número daquele encanador que arrumou seu banheiro”, um cano furado, claro, fazer o que? Engolir a decepção. “Obrigado”, um silêncio. “ Então legal”, mais um silêncio. Tenho que dizer alguma coisa, quem sabe xingar ele? Como ser sensata aos quase trinta e sendo solteira? Como ser sensata quando o que você mais quer é perder a cabeça? Um cano quebrado, um coração despedaçado e uma esperança desfeita. “É legal, boa sorte com seu cano.”, eu não tinha mais o que falar, na verdade tinha, mas calar era melhor. “Beleza então, anota aí meu número novo”. Um tchau.
Epílogo: duas semanas mais tarde, um cano concertado, uma amiga renovada depois que não sucumbiu à tentação do ex-namorado canalha, um emprego mantido sem atrasos, um fora no cara persistente e apenas uma vontade – ir ao cinema sozinha.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Insônia
Sou daquelas pessoas que só trabalham porque tem contas, e apesar de não ter errado de profissão e de gostar daquilo que faço, odeio ter que trabalhar. Eu me levanto, como já falei, às sete horas, mas só acordo mesmo depois das dez da manhã, por isso nas primeiras horas do dia sofro de mal-humor generalizado, que chamo simpaticamente sarcasmo matinal.
O porteiro do prédio sabe bem o que é isso, toda manhã, em seu uniforme de segurança de forró, ele atravessa meu caminho com seus sorrisos, bom dias e com aquele comentário maldoso sobre a vizinha do 203. Nos primeiros tempos tentei ser agradável e respondia ao “bom dia” verbalmente, depois comecei acenar com a cabeça, depois era um movimento labial parecido com um sorriso de canto, hoje me seguro para não mandar ele à merda também. No entanto, saio todos os dias com a mesma pergunta na cabeça: Quem é a vizinha do 203?
Meia noite e meia: preciso dormir. Rolo para o outro lado da cama e tento esquecer o porteiro sorridente. Tento não pensar em nada e decido ligar a tv, talvez o barulhinho e a falta de conteúdo interessante me dê sono, no entanto, é normalmente a falta de uma programação inteligente que me tira mais o sono. Por que não há programas interessantes nas madrugadas de segunda? Ou já que isso é inviável, por que não inventam um programa para pessoas que como eu que tem insônia? Sei lá, algo como a voz do Walmor Chagas contando ovelhas para a gente ou uma nova psedocelebridade (daquelas que são “descobertas” em reality shows) recitando cheia de emoção os nomes da lista telefônica. Como o mundo anda vazio de idéias!
Olho para o relógio já é mais de uma hora, vamos pense em nada, é simples, tem gente que passa a vida assim, vai tente. Olho para o outro lado, talvez tenha um calmantinho no criado mudo, salve a indústria farmacêutica! Abro a gaveta com uma esperança inútil própria do homem moderno viciado em fórmulas mágicas para tudo, infelizmente é sem consolo que me dou conta que não tenho calmantes, prozacs, ou qualquer outra droguinha que me faça dormir. Fiquei careta sem perceber, fazia anos que eu não precisava de nada disso, que dormir era apenas o ato mecânico e necessário de fechar os olhos sem pensar em nada durante 8 horas ininterruptas.
Uma e quarenta, resolvo ir até a cozinha, quem sabe um copo com água? Pego o copo e bebo água. Olho para meus pés e vejo minhas pantufas de bichinho e penso nos meus quase 30 anos e começo a me perguntar se há mais alguém no mundo que use pantufas além de mim e minha sobrinha de seis anos. Em que momento da vida, nós deixamos de usar pantufas por que são bonitinhas e quando começamos a usá-las para nos sentirmos jovens, engraçadas, descoladas, etc? Quando é que deixamos de pensar no sorriso bonito do vizinho e passamos a pensar na bunda e no plano de carreira dele?
Lembro sem querer do meu primeiro beijo, atrás do caminhão do Seu João, da minha amiga de infância me perguntando como era beijar e assim como se meu pensamento escorregasse lembro do meu primeiro namorado e da minha primeira dor de cotovelo. Da doce insegurança adolescente, de corações palpitantes e mãos frias. De quando ainda me perguntava se eu deveria ou não ir para cama com meu namorado e o que ele pensaria de mim se fizesse sexo com ele. Quando é que isso tudo ficou no passado? Quando parei de me preocupar com o que eles pensavam de mim e passei a pensar no que eu penso sobre eles?
Duas horas, volto para a cama e penso no Beto, o vizinho do 305. Ele não é bonito de encantar nem feio de assustar, às vezes é grosseiro e sua sinceridade é muitas vezes dispensável, mas é solteiro, tem seus 30 anos e tem uma vida normal, ou seja, tem emprego, contas, um irmão esquisito, um carro que precisa ser lavado, um gosto musical duvidoso, mas enfim, normal, nada de taras sexuais estranhas, síndromes raras, problemas familiares sérios, ex-esposa (ou esposa) e filhos. Ele, talvez, seria um cara legal para começar um romance. Quando é que a gente começa a pensar num possível romance e pára de se apaixonar instintivamente?
Já passam das três horas, e continuo sem pregar o olho, se eu conseguisse apenas desligar esse processo contínuo e suicida de pensamento frenético, talvez consiga dormir. Desligo a tv e ligo o rádio, uma música calma seria boa para relaxar. Pego o cd da Enya, escuto duas músicas e quando percebo estou desesperada procurando meus outros cds. Uma lista para dormir:
- Tom Jobim, não, muito intelectual, cheio de poesia, não é bom para dormir;
- Ana Carolina, não nem pensar, cult demais, faz a gente pensar;
- Seu Jorge, também não, a voz é muito bonita, fico viajando no som;
- Já sei: coletânea romântica de músicas italianas... definitivamente não, me faz chorar;
- Claro, como não pensei nisso, melhor desligar o rádio.
Por que eu não consigo apenas escutar uma música sem ficar pensando no seu conteúdo e na melodia? Quando é que deixei de apenas ouvir e passei a me envolver com a música de maneira intelectual? Lembrei das tantas danças da garrafa que dancei na adolescência e de como era apenas legal remexer sem pensar. Falando nisso quando é que minha bunda passou a ter celulite?
Três e meia meu corpo começa a implorar para que eu pare de pensar e feche os olhos. Durmo. Sem sonhos, sem pesadelos, apenas deixo meus olhos fecharem e se conservarem fechados. Como é fácil dormir quando não se há nada importante para pensar, quando a vida é simples e somos adultos!