sábado, 11 de julho de 2009

“Ser” mulher

Hoje estou meio estranha, não que eu esteja me sentindo velha, ou mais velha, no entanto foi uma sensação nova de que os anos têm passado mais rápido do que eu imaginava, e que toda essa aceleração do tempo vem me acertando sem que eu perceba.
Tudo começou há duas semanas, era para ser mais um dia típico da minha vida: acordar cedo e ir para o trabalho, talvez me estressar olhando para a carinha de coala bem resolvida da minha chefe. Até aí tudo dentro da minha rotina, mas no fim do dia tive que sair para comprar o presente de aniversário de uma amiga, que completa mais um aninho de vida no sábado. Entrei em várias lojas de roupas, bijuterias e bolsas e, por mais um ano, fico tentando dar um presente mais significativo do que necessário. Conclusão: comprei uma bolsa - ela adora bolsas -, mesmo que eu queira lutar contra esses presentes, no final sempre acabo dando o óbvio, ou pelo menos aquilo que acho que será mais funcional.
Foi sair da loja e entrar no carro que uma onda avassaladora me atingiu. Lembrei de quando eu e ela ainda nos dávamos bonecas e recordei de tantas brincadeiras e de tantas conversas jogadas ao vento, de como crescemos juntas e de quanto tempo a gente já se conhecia. E então, foi que me dei conta que a conheço há mais de duas décadas, que somos amigas, confidentes e companheiras desde que éramos crianças, e por mais que eu soubesse isso somente naquele exato momento me dei conta de como os anos passaram por nós. Respirei fundo procurando não pensar nos anos, mas como não pensar neles.
No entanto, não eram os anos que me impressionava, mas uma pergunta: quando nos tornamos mulheres? No começo parecia apenas uma pergunta tola, porém sem resposta aparente.Foi aí veio a segunda onda avassaladora que me atingiu... e um novo questionamento surgiu ainda mais forte e perturbador: como definir o “ser” mulher? Será que ter um pouco mais de um quarto de século é resposta! Não... não é isso que faz de mim nem a qualquer outra mulher ser mulher. Liguei o carro, dirige quase que sem rumo procurando dentro de mim o caminho, talvez uma chave para descobrir o que é ser.
Li há anos um livro de Clarice Lispector, em que a personagem principal não sabia “ser”, será que eu também não sei? Enquanto minha cabeça tentava chegar há uma resposta lógica, meu coração só sentia uma angustia crescente. Será que estou “sendo”? Será que ser mulher é acordar todos os dias e ir trabalhar, ter contas a pagar, fazer sexo com quem desejar e mesmo assim só pensar em se casar e ter filhos? Antigamente, no tempo de nossas mães era mais fácil, pois elas tinham nitidamente uma definição (não dada por elas, mas acatada por elas) do que era ser mulher, ou de quando se tornavam uma. Tal título, se é que podemos assim falar, era apenas recebido quando elas se casavam, a vinda dos filhos somente reafirmava a condição perante a sociedade. Sociedade machista ou não, a verdade é essa, sua mãe e a minha se tornaram mulheres quando encontraram seus pais e se casaram.
Longe de mim, querer fazer um estudo antropológico do assunto, mas infelizmente não pude me abster dos fatos anteriores à modernidade. Até porque de alguma forma carregamos dentro de nós uma grande parcela deste passado que herdamos, e é por isso que hoje nos perguntamos ainda o que é ser mulher, afinal de certa forma perdemos pelos anos essa definição, mas ainda não criamos outra.
Vou poupar os sarcasmos e as ironias, poderia rir ou quem sabe fazer uma piada disso tudo, mas não consegui, e até agora não tenho conseguido. Comecei a guiar o carro automaticamente até em casa, não tinha mais espaço para qualquer tipo de pensamento que não fosse esse: como é que podemos nos definir mulher, se nem sabemos ao certo o que é isso? Enfim, estava no doce aconchego do lar, no meu meio, onde sempre seria a filha. Não, não quero ser simplista, nem gosto de não terminar raciocínios, mas depois de um dia de trabalho nada melhor do que assistir tv e não pensar mais em nada.
Já na hora de dormir, não pude mais fugir. Puxei pela memória os últimos dez anos e então revi muitas coisas que eu havia esquecido: a primeira vez que saí a noite, o meu primeiro porre e a primeira ressaca, meu primeiro cigarro, a primeira paixão, a primeira vez que fiz sexo, minhas primeiras decepções amorosas, minha formatura, o dia do vestibular, a primeira noite de sexo sem amor, as festas da faculdade, os amigos malucos deixados pelo caminho, o namoro de anos que não deu certo, enfim tudo até chegar aqui. Foi em algum momento nesses dez anos que me tornei mulher, ou foi durante esses tantos anos que fui, muitas vezes por caminhos tortuosos, me tornando uma fêmea adulta de Homo sapiens.
Definição do dicionário: mulher, s. f. Pessoa do sexo feminino; pessoa do sexo feminino depois da puberdade (opõe-se a menina); essa pessoa quando casada; esposa; senhora.
Agora pasmem, definição do dicionário 2: homem, s. m. animal racional; ser humano; indivíduo adulto do sexo masculino; varão; indivíduo enérgico, corajoso.
Perceberam? Até no dicionário ser mulher está relacionada ao casamento. Depois me acusam de ser feminista, mas convenhamos, enquanto somos a “pessoa quando casada”, eles são enérgicos e corajosos! Quem definiu isso? Somos nós que engordamos, nos enchemos de estrias, agüentamos nove meses de geração, os parimos, os amamentamos (deixando com orgulho nossos peitos caírem) e os agüentamos até que uma trouxa resolva se casar com eles, para enfim, transferimos o fardo a elas. E apesar disso tudo não somos por definição lingüística: “corajosas”. Enfim, não foi o dicionário que conseguiu me livrar de tantas dúvidas.
Tentei então fazer uma lista de coisas que eu achava que me tornavam mulher:
1. Ter útero, ovário, menstruação, hormônios, etc... Biologicamente é fácil definir.
2. Ter mais de 21 anos; ter feito sexo (com mais homens que minha mãe sonha, mas com um número infinitamente menor do que minha tia puritana imagina);
3. Ter emprego; ter contas; ser responsável pelos meus atos;
4. Ter TPM; ter que fazer papa Nicolau anualmente, ter que tomar pílulas;
5. Não gostar mais de Xuxa, Chaves e de brincar de bonecas (não sobra tempo!);
6. Não ter paciência de ficar só para beijar; só pensar em relacionamento sério e duradouro;
7. Pensar em comprar: bolsas, sapatos, roupas, perfumes... e ralar para pagar tudo sozinha;
8. Pensar em homens reais;
9. Pensar em casar com eles e ter filhos inteligentes.
10. Comprar camisinha na farmácia, teste de gravidez e KY.
11. Sair para jantar e rachar a conta; ir ao motel e rachar também!
12. Ligar para a amiga e falar do divórcio;
13. Não parar de pensar em celulite, estrias e no peso (que sempre é maior do que a gente desejaria);
14. Ser feminina; ser forte; ser corajosa; e ainda chorar quando ver “O casamento do meu melhor amigo”.
15. Querer ser mãe e nos dedicar aos filhos.
Poderia ter colocado mais um monte de itens, mas o sono me pegou e não pensei no assunto. Talvez porque não tenha me contentado, ou talvez pelo contrário. O fato é que naquele momento tudo aquilo não passava de neurose, ou de pura filosofia barata. Aquilo que não definimos, definido está em algum lugar, mas por mais que eu me pergunte nunca vou conseguir saber quando é que foi que me tornei mulher. Dormi e quando acordei no dia seguinte tinha tantas coisas reais para pensar, que acabei me esquecendo.
Duas semanas se passaram, e agora eu completava mais um ano de vida. Infelizmente cresci e mesmo que ainda não tenha definido o que é ser mulher, sei que já o sou.

terça-feira, 7 de julho de 2009

O telefone

Hoje ninguém consegue imaginar um mundo sem telefone celular, computador e internet. Eu, por exemplo, não consigo imaginar o que seria de mim sem eles. Uma vida sem poder falar com alguém enquanto estou numa fila de banco ou quando estou saindo do supermercado, às vezes é só para me ajudar a encarar uma realidade penosa, outras tantas é para resolver problemas (meus ou dos outros).

No fim das contas, acabei ficando escrava do meu celular, pois não carrego mais relógio, agenda ou câmera digital, tudo que preciso quando saio é esse pequeno e moderno aparelho. Porém, não sou daquelas viciadas em conversar longas pelo fone, converso sempre o necessário (e isso não incluí uma “fossa” de amiga, que pode demorar de uma hora ou até mais, isso depende da canalhice do namorado e de quanto ela anda sensível, graças a Deus ultimamente essas ligações andam ficando raras no meu meio, não porque todas andam de bem com os seus relacionamentos, mas porque estamos vivendo uma época de estiagem amorosa!), enfim celular é só em casos necessários, e ficar numa fila gigante sem perspectiva de fim é um desses casos.

Outro dia esqueci meu celular em casa, sabe como é, ir dormir tarde por causa da internet (você vai só olhar seus e-mails, então liga o msn, que puxa uma entradinha no Orkut, quando você percebe não conseguiu responder os e-mails, mas respondeu todos os “scraps”, entrou na página do seu ex e da atual namorada dele, enfim, termina a noite arrasada e promete que nunca mais irá fazer isso, até a noite seguinte!), mas continuando, fui dormir tarde, quando meu celular-despertador tocou desliguei dormindo, 10 minutos depois novamente o mesmo processo de toca e desliga, isso acontece mais dois vezes, até que finalmente acordo 40 minutos atrasada! Enfim, acabei deixando meu celular em casa, paciência, não vou morrer só porque meu celular não está comigo.

Uma hora de abstinência, sei que posso resistir mesmo me sentindo um pouco nua. Preciso do telefone da minha depiladora, entro num pequeno desespero, preciso marcar uma hora, pois já estou quase um macaquinho e não terei tempo se não for hoje. O que fazer? Relaxo, voltarei aos métodos arcaicos – a gilete. Merda, se o Beto me ligar para sair logo essa semana? Eu não vou sair toda empipocada por causa de gilete, vai que ele queira finalmente ultrapassar a barreira de amigos que se atraem para um irresistível caso? Respiro fundo... na hora do almoço dou uma escapadinha e vou buscar meu celular.

O telefone da minha mesa toca. “Alô filha, você esqueceu seu celular, ele já tocou umas três vezes, devo atender?”, três segundos para pensar e responder, fora a vontade incontrolável de pedir para ela me socorrer trazendo meu amiguinho até mim. Respire, pense e responda. E se for o Beto? “Não mãe, não precisa. Passo aí e pego na hora do almoço.”, uma pausa “então filha, bom dia para você”, ela desliga, e eu nem perguntei se ela podia ver quem me ligou. Merda, quem será que me ligou? No entanto, agora só faltam duas horas, preciso e vou resistir. Não deve ser o Beto, ele está trabalhando agora. Talvez alguma amiga em perigo, não, todas tem o meu número do trabalho e também a maioria me manda e-mail nesse horário. Só pode ser o Sr. Armando, tentando me caçar para resolver algum pepino, se for ele estou perdida, meu Deus! E se for urgente? Serei despedida. Ligo para minha casa.

“Mãe, sou eu. Vê para mim o número que me ligou fazendo o favor”, ouço o barulhinho das teclas do meu celular, soam como música regida pelos dedos da minha mãe” Filha o número está como não registrado.”, e agora? “Todas as três chamadas são do mesmo número?”, responda que não, vai mãe me ajuda. “Todas as chamadas são de números sem identificação.”, agradeço desolada colocando o fone no gancho. Quem será que anda me procurando? E se for o cara de sábado? Ele pegou meu telefone, não pode ser justo ele que eu não me interessei me ligar. Só pode ser ele, mas que azar pelo menos se fosse o Beto.

Só mais uma hora e darei fim a essa tortura. Meu telefone toca de novo, é a minha chefe com cara de coala. “Oi, eu preciso que você ligue para o Sr. Armando, ele ficou de entregar um contrato e até agora não retornou.”, ocupação, era isso que eu precisava, busco na minha agenda de papel o número do homem do pepino, adivinhem, não encontro, essa minha mania de registrar tudo só no celular. Entro em pânico, respiro fundo e procuro nos e-mails e encontro o telefone. Nada como a internet nessas horas de aperto. Como eu amo toda essa tecnologia!

Agora faltam apenas dez minutos para o almoço. Organizo minha mesa, o telefone toca de novo. “Oi sou eu, a gente pode almoçar juntas?”, era uma amiga, e agora? Recuso por causa do meu celular? “O Leo me ligou agora falando para a gente ir conversar, tentar resolver as coisas. Não sei o que fazer e preciso conversar com você.”, não tenho como recusar. Por que as amigas são tão importantes? Porque são elas que nos amparam quando o ex, que ainda amamos, nos liga para conversar depois de meses de silêncio. Crio então um plano B e combino de almoçar perto da minha casa. Tem que dar tempo. Contrariando minhas expectativas tudo dará errado, é a lei de Murphy!

Meio dia e dez, chego ao restaurante. Minha amiga ainda não chegou, fico tentada a pedir um refrigerante, mas lembro dos últimos dois meses que ando lutando contra as celulites que avançam rapidamente pelo meu bumbum. Um suco. Com açúcar ou adoçante? Claro que com adoçante! Seria ótimo, mas peco e peço com açúcar. Vamos deixar de ser neuróticas, eu odeio adoçante e não é o suco que irá me engordar, e o que são algumas calorias a mais? O homem que quero não se importa se eu engordo ou se tenho celulite, ele tem que gostar de mim pelo meu papo, inteligência e senso de humor. Quem eu quero enganar? Arrependo-me por ter pedido com açúcar, mas pelo menos o suco estava bom. A vida é feita de pequenos prazeres e um deles é tomar suco com açúcar!

Quinze minutos depois ela ainda não chegou. Será que aconteceu alguma coisa? Procuro automaticamente na bolsa meu celular. Merda. E agora? Passa mais dez minutos ela ainda não chegou e não dá para esperar mais, me sirvo e começo a almoçar sozinha. Fico pensando o que teria acontecido. Talvez ela tenha apenas se atrasado, ou tenha tido outro compromisso, será que ela sofreu algum acidente. Começo a ficar paranóica, por isso, tento apenas me concentrar na comida. Olho para o meu prato recheado de salada e de um frango grelhado, quem eu quero enganar? Odeio essa alimentação saudável e essa dieta, fico com vontade de levantar e pegar um pedaço suculento de lasagna. Quanto tempo faz que não como massa? Sua burra semana passada, quando saiu com o Beto para comer pizza! Resolvo ser persistente e não pegar um pedaço de lasagna, mas peço sobremesa. Um pedaço de céu em forma de torta alemã. Segundo pequeno prazer do dia: comer lentamente sentindo o chocolate derretendo na boca e acumulando no quadril.

Agora, tenho só dez minutos para pegar meu celular e voltar para o trabalho, sem esperanças de saber o motivo do bolo da amiga confusa. Infelizmente, o caminho entre o restaurante-casa-trabalho é recheado de semáforos. Vou me atrasar de novo. Resolvo deixar o celular para trás e ir direto para o trabalho. Sobreviveu-se a essa manhã, sobrevive-se ao resto do dia. O Beto não vai me ligar e, se ele não ligar, também diminui a necessidade de me depilar. O importante agora é não chegar atrasada duas vezes no mesmo dia. Como é difícil tomar decisões centradas.

Chego a tempo ao escritório. A tempo de ver: a cara de coala com seu sorriso politicamente correto, a estagiária meiguinha e a minha mesa se enchendo de papéis. O mundo maravilhoso do trabalho, cheio de fantasia e empolgação. E apesar dessa maravilha, só penso no meu celular. A tarde passa com o mesmo jeitão da manhã. Ou seja, com momentos de angustia, desespero, paranóia, mas também de pequenos prazeres vividos, um elogio da chefe, uma pendência resolvida, um trabalho bem feito e claro, no final de tudo sobrevivi sem meu celular. Quando terminou o dia, eu me senti orgulhosa por ter conseguido, por não ter enlouquecido e determinei que a partir desse dia não seria tão dependente desse aparelhinho. É regra a gente se enganar quando estamos orgulhosas.

Seis e meia, chego enfim em casa. Só tenho um pensamento, onde está meu celular. Saio correndo, mal cumprimento minha mãe, a tortura do dia vai acabar. Ele estava lá, sozinho entre meus pertences, tão desolado como eu, tenho a impressão que se ele pudesse falar, falaria que também sentiu minha falta, que não quer mais ser esquecido. Vejo as ligações não atendidas, saldo: 6 ligações não identificadas, 2 ligações da amiga confusa e mais 3 chamadas de trabalho. Sem Beto! Quem sabe nas mensagens?! Saldo final das mensagens: 1 da amiga perdida dizendo que não iria almoçar, pois teria que trabalhar mais um pouco, e uma da operadora de telefonia. Decepção e curiosidade, quem será que me ligou de manhã? Seja lá quem for terá que me ligar de novo.

Último pequeno prazer do dia: “alô, oi sou eu!”, pausa... respiro fundo o número não é conhecido mas a voz, olho a hora onze horas, tremo, um fio de esperança, era o Beto. “Oi, eu sei”, burra! Ele vai saber que você esperou por esse telefonema o dia todo. Um riso, “te liguei hoje de manhã umas 5 vezes, você não atendeu, aconteceu alguma coisa?”, respiro e explico o esquecimento. “liguei”... uma pausa, vai fala!!! “então liguei para perguntar se você pode me dar o número daquele encanador que arrumou seu banheiro”, um cano furado, claro, fazer o que? Engolir a decepção. “Obrigado”, um silêncio. “ Então legal”, mais um silêncio. Tenho que dizer alguma coisa, quem sabe xingar ele? Como ser sensata aos quase trinta e sendo solteira? Como ser sensata quando o que você mais quer é perder a cabeça? Um cano quebrado, um coração despedaçado e uma esperança desfeita. “É legal, boa sorte com seu cano.”, eu não tinha mais o que falar, na verdade tinha, mas calar era melhor. “Beleza então, anota aí meu número novo”. Um tchau.

Epílogo: duas semanas mais tarde, um cano concertado, uma amiga renovada depois que não sucumbiu à tentação do ex-namorado canalha, um emprego mantido sem atrasos, um fora no cara persistente e apenas uma vontade – ir ao cinema sozinha.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Insônia

Meia noite: rolo na cama e penso no relógio. Lembro que hoje não é mais domingo e que irei em 7 horas acordar, tomar meu banho, me pesar na maldita balança do banheiro – e verei o abuso do final de semana em quilos ganhos -, irei tomar meu café e partir para o trabalho. Então passarei a pensar na cara de coala da minha chefe e de seu humor sem graça, já imagino os comentários dela sobre o final de semana, sobre o quanto a segunda-feira a enche de energia e como o trabalho a entusiasma. Não há no mundo algo mais irritante que um Workaholic, às oito horas manhã, te desejando um bom dia! E antes que sucumba à vontade de responder rispidamente um “só se for para você” ou quem sabe um “vá à merda com seu bom dia” farei um aceno com a cabeça e pensarei na rodas novas que tenho comprar para meu carro.

Sou daquelas pessoas que só trabalham porque tem contas, e apesar de não ter errado de profissão e de gostar daquilo que faço, odeio ter que trabalhar. Eu me levanto, como já falei, às sete horas, mas só acordo mesmo depois das dez da manhã, por isso nas primeiras horas do dia sofro de mal-humor generalizado, que chamo simpaticamente sarcasmo matinal.
O porteiro do prédio sabe bem o que é isso, toda manhã, em seu uniforme de segurança de forró, ele atravessa meu caminho com seus sorrisos, bom dias e com aquele comentário maldoso sobre a vizinha do 203. Nos primeiros tempos tentei ser agradável e respondia ao “bom dia” verbalmente, depois comecei acenar com a cabeça, depois era um movimento labial parecido com um sorriso de canto, hoje me seguro para não mandar ele à merda também. No entanto, saio todos os dias com a mesma pergunta na cabeça: Quem é a vizinha do 203?

Meia noite e meia: preciso dormir. Rolo para o outro lado da cama e tento esquecer o porteiro sorridente. Tento não pensar em nada e decido ligar a tv, talvez o barulhinho e a falta de conteúdo interessante me dê sono, no entanto, é normalmente a falta de uma programação inteligente que me tira mais o sono. Por que não há programas interessantes nas madrugadas de segunda? Ou já que isso é inviável, por que não inventam um programa para pessoas que como eu que tem insônia? Sei lá, algo como a voz do Walmor Chagas contando ovelhas para a gente ou uma nova psedocelebridade (daquelas que são “descobertas” em reality shows) recitando cheia de emoção os nomes da lista telefônica. Como o mundo anda vazio de idéias!

Olho para o relógio já é mais de uma hora, vamos pense em nada, é simples, tem gente que passa a vida assim, vai tente. Olho para o outro lado, talvez tenha um calmantinho no criado mudo, salve a indústria farmacêutica! Abro a gaveta com uma esperança inútil própria do homem moderno viciado em fórmulas mágicas para tudo, infelizmente é sem consolo que me dou conta que não tenho calmantes, prozacs, ou qualquer outra droguinha que me faça dormir. Fiquei careta sem perceber, fazia anos que eu não precisava de nada disso, que dormir era apenas o ato mecânico e necessário de fechar os olhos sem pensar em nada durante 8 horas ininterruptas.

Uma e quarenta, resolvo ir até a cozinha, quem sabe um copo com água? Pego o copo e bebo água. Olho para meus pés e vejo minhas pantufas de bichinho e penso nos meus quase 30 anos e começo a me perguntar se há mais alguém no mundo que use pantufas além de mim e minha sobrinha de seis anos. Em que momento da vida, nós deixamos de usar pantufas por que são bonitinhas e quando começamos a usá-las para nos sentirmos jovens, engraçadas, descoladas, etc? Quando é que deixamos de pensar no sorriso bonito do vizinho e passamos a pensar na bunda e no plano de carreira dele?

Lembro sem querer do meu primeiro beijo, atrás do caminhão do Seu João, da minha amiga de infância me perguntando como era beijar e assim como se meu pensamento escorregasse lembro do meu primeiro namorado e da minha primeira dor de cotovelo. Da doce insegurança adolescente, de corações palpitantes e mãos frias. De quando ainda me perguntava se eu deveria ou não ir para cama com meu namorado e o que ele pensaria de mim se fizesse sexo com ele. Quando é que isso tudo ficou no passado? Quando parei de me preocupar com o que eles pensavam de mim e passei a pensar no que eu penso sobre eles?

Duas horas, volto para a cama e penso no Beto, o vizinho do 305. Ele não é bonito de encantar nem feio de assustar, às vezes é grosseiro e sua sinceridade é muitas vezes dispensável, mas é solteiro, tem seus 30 anos e tem uma vida normal, ou seja, tem emprego, contas, um irmão esquisito, um carro que precisa ser lavado, um gosto musical duvidoso, mas enfim, normal, nada de taras sexuais estranhas, síndromes raras, problemas familiares sérios, ex-esposa (ou esposa) e filhos. Ele, talvez, seria um cara legal para começar um romance. Quando é que a gente começa a pensar num possível romance e pára de se apaixonar instintivamente?

Já passam das três horas, e continuo sem pregar o olho, se eu conseguisse apenas desligar esse processo contínuo e suicida de pensamento frenético, talvez consiga dormir. Desligo a tv e ligo o rádio, uma música calma seria boa para relaxar. Pego o cd da Enya, escuto duas músicas e quando percebo estou desesperada procurando meus outros cds. Uma lista para dormir:

- Tom Jobim, não, muito intelectual, cheio de poesia, não é bom para dormir;
- Ana Carolina, não nem pensar, cult demais, faz a gente pensar;
- Seu Jorge, também não, a voz é muito bonita, fico viajando no som;
- Já sei: coletânea romântica de músicas italianas... definitivamente não, me faz chorar;
- Claro, como não pensei nisso, melhor desligar o rádio.

Por que eu não consigo apenas escutar uma música sem ficar pensando no seu conteúdo e na melodia? Quando é que deixei de apenas ouvir e passei a me envolver com a música de maneira intelectual? Lembrei das tantas danças da garrafa que dancei na adolescência e de como era apenas legal remexer sem pensar. Falando nisso quando é que minha bunda passou a ter celulite?

Três e meia meu corpo começa a implorar para que eu pare de pensar e feche os olhos. Durmo. Sem sonhos, sem pesadelos, apenas deixo meus olhos fecharem e se conservarem fechados. Como é fácil dormir quando não se há nada importante para pensar, quando a vida é simples e somos adultos!

domingo, 5 de julho de 2009

Bem vindos

Gente,
Há muito tempo tenho escrito muitas coisas, principalmente crônicas, que sem nenhuma pretensão resolvi tornar agora público. São apenas pensamentos organizados em forma literaria, se é que posso chamar isso de literatura, prefiro ser menos audaciosa e dizer que são pequenos desabafos extraordinariamente organizados em textos curtos.
Para quem me conhece, sabe muito bem do meu humor sarcástico e mal humorado, e sabe o quanto gosto de escrever...
Espero que aqueles que ainda não conhecem, que apreciem, e se não for possível (afinal não quero agradar a todos), que pelo menos divulguem... quem sabe alguém goste!!!
É isso boa leitura para todos nós!!
obrigada a todos em especial a Aline (minha amiga de muitos anos e fiel leitora)
mil bjos