Hoje estou meio estranha, não que eu esteja me sentindo velha, ou mais velha, no entanto foi uma sensação nova de que os anos têm passado mais rápido do que eu imaginava, e que toda essa aceleração do tempo vem me acertando sem que eu perceba.
Tudo começou há duas semanas, era para ser mais um dia típico da minha vida: acordar cedo e ir para o trabalho, talvez me estressar olhando para a carinha de coala bem resolvida da minha chefe. Até aí tudo dentro da minha rotina, mas no fim do dia tive que sair para comprar o presente de aniversário de uma amiga, que completa mais um aninho de vida no sábado. Entrei em várias lojas de roupas, bijuterias e bolsas e, por mais um ano, fico tentando dar um presente mais significativo do que necessário. Conclusão: comprei uma bolsa - ela adora bolsas -, mesmo que eu queira lutar contra esses presentes, no final sempre acabo dando o óbvio, ou pelo menos aquilo que acho que será mais funcional.
Foi sair da loja e entrar no carro que uma onda avassaladora me atingiu. Lembrei de quando eu e ela ainda nos dávamos bonecas e recordei de tantas brincadeiras e de tantas conversas jogadas ao vento, de como crescemos juntas e de quanto tempo a gente já se conhecia. E então, foi que me dei conta que a conheço há mais de duas décadas, que somos amigas, confidentes e companheiras desde que éramos crianças, e por mais que eu soubesse isso somente naquele exato momento me dei conta de como os anos passaram por nós. Respirei fundo procurando não pensar nos anos, mas como não pensar neles.
No entanto, não eram os anos que me impressionava, mas uma pergunta: quando nos tornamos mulheres? No começo parecia apenas uma pergunta tola, porém sem resposta aparente.Foi aí veio a segunda onda avassaladora que me atingiu... e um novo questionamento surgiu ainda mais forte e perturbador: como definir o “ser” mulher? Será que ter um pouco mais de um quarto de século é resposta! Não... não é isso que faz de mim nem a qualquer outra mulher ser mulher. Liguei o carro, dirige quase que sem rumo procurando dentro de mim o caminho, talvez uma chave para descobrir o que é ser.
Li há anos um livro de Clarice Lispector, em que a personagem principal não sabia “ser”, será que eu também não sei? Enquanto minha cabeça tentava chegar há uma resposta lógica, meu coração só sentia uma angustia crescente. Será que estou “sendo”? Será que ser mulher é acordar todos os dias e ir trabalhar, ter contas a pagar, fazer sexo com quem desejar e mesmo assim só pensar em se casar e ter filhos? Antigamente, no tempo de nossas mães era mais fácil, pois elas tinham nitidamente uma definição (não dada por elas, mas acatada por elas) do que era ser mulher, ou de quando se tornavam uma. Tal título, se é que podemos assim falar, era apenas recebido quando elas se casavam, a vinda dos filhos somente reafirmava a condição perante a sociedade. Sociedade machista ou não, a verdade é essa, sua mãe e a minha se tornaram mulheres quando encontraram seus pais e se casaram.
Longe de mim, querer fazer um estudo antropológico do assunto, mas infelizmente não pude me abster dos fatos anteriores à modernidade. Até porque de alguma forma carregamos dentro de nós uma grande parcela deste passado que herdamos, e é por isso que hoje nos perguntamos ainda o que é ser mulher, afinal de certa forma perdemos pelos anos essa definição, mas ainda não criamos outra.
Vou poupar os sarcasmos e as ironias, poderia rir ou quem sabe fazer uma piada disso tudo, mas não consegui, e até agora não tenho conseguido. Comecei a guiar o carro automaticamente até em casa, não tinha mais espaço para qualquer tipo de pensamento que não fosse esse: como é que podemos nos definir mulher, se nem sabemos ao certo o que é isso? Enfim, estava no doce aconchego do lar, no meu meio, onde sempre seria a filha. Não, não quero ser simplista, nem gosto de não terminar raciocínios, mas depois de um dia de trabalho nada melhor do que assistir tv e não pensar mais em nada.
Já na hora de dormir, não pude mais fugir. Puxei pela memória os últimos dez anos e então revi muitas coisas que eu havia esquecido: a primeira vez que saí a noite, o meu primeiro porre e a primeira ressaca, meu primeiro cigarro, a primeira paixão, a primeira vez que fiz sexo, minhas primeiras decepções amorosas, minha formatura, o dia do vestibular, a primeira noite de sexo sem amor, as festas da faculdade, os amigos malucos deixados pelo caminho, o namoro de anos que não deu certo, enfim tudo até chegar aqui. Foi em algum momento nesses dez anos que me tornei mulher, ou foi durante esses tantos anos que fui, muitas vezes por caminhos tortuosos, me tornando uma fêmea adulta de Homo sapiens.
Definição do dicionário: mulher, s. f. Pessoa do sexo feminino; pessoa do sexo feminino depois da puberdade (opõe-se a menina); essa pessoa quando casada; esposa; senhora.
Agora pasmem, definição do dicionário 2: homem, s. m. animal racional; ser humano; indivíduo adulto do sexo masculino; varão; indivíduo enérgico, corajoso.
Perceberam? Até no dicionário ser mulher está relacionada ao casamento. Depois me acusam de ser feminista, mas convenhamos, enquanto somos a “pessoa quando casada”, eles são enérgicos e corajosos! Quem definiu isso? Somos nós que engordamos, nos enchemos de estrias, agüentamos nove meses de geração, os parimos, os amamentamos (deixando com orgulho nossos peitos caírem) e os agüentamos até que uma trouxa resolva se casar com eles, para enfim, transferimos o fardo a elas. E apesar disso tudo não somos por definição lingüística: “corajosas”. Enfim, não foi o dicionário que conseguiu me livrar de tantas dúvidas.
Tentei então fazer uma lista de coisas que eu achava que me tornavam mulher:
1. Ter útero, ovário, menstruação, hormônios, etc... Biologicamente é fácil definir.
2. Ter mais de 21 anos; ter feito sexo (com mais homens que minha mãe sonha, mas com um número infinitamente menor do que minha tia puritana imagina);
3. Ter emprego; ter contas; ser responsável pelos meus atos;
4. Ter TPM; ter que fazer papa Nicolau anualmente, ter que tomar pílulas;
5. Não gostar mais de Xuxa, Chaves e de brincar de bonecas (não sobra tempo!);
6. Não ter paciência de ficar só para beijar; só pensar em relacionamento sério e duradouro;
7. Pensar em comprar: bolsas, sapatos, roupas, perfumes... e ralar para pagar tudo sozinha;
8. Pensar em homens reais;
9. Pensar em casar com eles e ter filhos inteligentes.
10. Comprar camisinha na farmácia, teste de gravidez e KY.
11. Sair para jantar e rachar a conta; ir ao motel e rachar também!
12. Ligar para a amiga e falar do divórcio;
13. Não parar de pensar em celulite, estrias e no peso (que sempre é maior do que a gente desejaria);
14. Ser feminina; ser forte; ser corajosa; e ainda chorar quando ver “O casamento do meu melhor amigo”.
15. Querer ser mãe e nos dedicar aos filhos.
Poderia ter colocado mais um monte de itens, mas o sono me pegou e não pensei no assunto. Talvez porque não tenha me contentado, ou talvez pelo contrário. O fato é que naquele momento tudo aquilo não passava de neurose, ou de pura filosofia barata. Aquilo que não definimos, definido está em algum lugar, mas por mais que eu me pergunte nunca vou conseguir saber quando é que foi que me tornei mulher. Dormi e quando acordei no dia seguinte tinha tantas coisas reais para pensar, que acabei me esquecendo.
Duas semanas se passaram, e agora eu completava mais um ano de vida. Infelizmente cresci e mesmo que ainda não tenha definido o que é ser mulher, sei que já o sou.
Tudo começou há duas semanas, era para ser mais um dia típico da minha vida: acordar cedo e ir para o trabalho, talvez me estressar olhando para a carinha de coala bem resolvida da minha chefe. Até aí tudo dentro da minha rotina, mas no fim do dia tive que sair para comprar o presente de aniversário de uma amiga, que completa mais um aninho de vida no sábado. Entrei em várias lojas de roupas, bijuterias e bolsas e, por mais um ano, fico tentando dar um presente mais significativo do que necessário. Conclusão: comprei uma bolsa - ela adora bolsas -, mesmo que eu queira lutar contra esses presentes, no final sempre acabo dando o óbvio, ou pelo menos aquilo que acho que será mais funcional.
Foi sair da loja e entrar no carro que uma onda avassaladora me atingiu. Lembrei de quando eu e ela ainda nos dávamos bonecas e recordei de tantas brincadeiras e de tantas conversas jogadas ao vento, de como crescemos juntas e de quanto tempo a gente já se conhecia. E então, foi que me dei conta que a conheço há mais de duas décadas, que somos amigas, confidentes e companheiras desde que éramos crianças, e por mais que eu soubesse isso somente naquele exato momento me dei conta de como os anos passaram por nós. Respirei fundo procurando não pensar nos anos, mas como não pensar neles.
No entanto, não eram os anos que me impressionava, mas uma pergunta: quando nos tornamos mulheres? No começo parecia apenas uma pergunta tola, porém sem resposta aparente.Foi aí veio a segunda onda avassaladora que me atingiu... e um novo questionamento surgiu ainda mais forte e perturbador: como definir o “ser” mulher? Será que ter um pouco mais de um quarto de século é resposta! Não... não é isso que faz de mim nem a qualquer outra mulher ser mulher. Liguei o carro, dirige quase que sem rumo procurando dentro de mim o caminho, talvez uma chave para descobrir o que é ser.
Li há anos um livro de Clarice Lispector, em que a personagem principal não sabia “ser”, será que eu também não sei? Enquanto minha cabeça tentava chegar há uma resposta lógica, meu coração só sentia uma angustia crescente. Será que estou “sendo”? Será que ser mulher é acordar todos os dias e ir trabalhar, ter contas a pagar, fazer sexo com quem desejar e mesmo assim só pensar em se casar e ter filhos? Antigamente, no tempo de nossas mães era mais fácil, pois elas tinham nitidamente uma definição (não dada por elas, mas acatada por elas) do que era ser mulher, ou de quando se tornavam uma. Tal título, se é que podemos assim falar, era apenas recebido quando elas se casavam, a vinda dos filhos somente reafirmava a condição perante a sociedade. Sociedade machista ou não, a verdade é essa, sua mãe e a minha se tornaram mulheres quando encontraram seus pais e se casaram.
Longe de mim, querer fazer um estudo antropológico do assunto, mas infelizmente não pude me abster dos fatos anteriores à modernidade. Até porque de alguma forma carregamos dentro de nós uma grande parcela deste passado que herdamos, e é por isso que hoje nos perguntamos ainda o que é ser mulher, afinal de certa forma perdemos pelos anos essa definição, mas ainda não criamos outra.
Vou poupar os sarcasmos e as ironias, poderia rir ou quem sabe fazer uma piada disso tudo, mas não consegui, e até agora não tenho conseguido. Comecei a guiar o carro automaticamente até em casa, não tinha mais espaço para qualquer tipo de pensamento que não fosse esse: como é que podemos nos definir mulher, se nem sabemos ao certo o que é isso? Enfim, estava no doce aconchego do lar, no meu meio, onde sempre seria a filha. Não, não quero ser simplista, nem gosto de não terminar raciocínios, mas depois de um dia de trabalho nada melhor do que assistir tv e não pensar mais em nada.
Já na hora de dormir, não pude mais fugir. Puxei pela memória os últimos dez anos e então revi muitas coisas que eu havia esquecido: a primeira vez que saí a noite, o meu primeiro porre e a primeira ressaca, meu primeiro cigarro, a primeira paixão, a primeira vez que fiz sexo, minhas primeiras decepções amorosas, minha formatura, o dia do vestibular, a primeira noite de sexo sem amor, as festas da faculdade, os amigos malucos deixados pelo caminho, o namoro de anos que não deu certo, enfim tudo até chegar aqui. Foi em algum momento nesses dez anos que me tornei mulher, ou foi durante esses tantos anos que fui, muitas vezes por caminhos tortuosos, me tornando uma fêmea adulta de Homo sapiens.
Definição do dicionário: mulher, s. f. Pessoa do sexo feminino; pessoa do sexo feminino depois da puberdade (opõe-se a menina); essa pessoa quando casada; esposa; senhora.
Agora pasmem, definição do dicionário 2: homem, s. m. animal racional; ser humano; indivíduo adulto do sexo masculino; varão; indivíduo enérgico, corajoso.
Perceberam? Até no dicionário ser mulher está relacionada ao casamento. Depois me acusam de ser feminista, mas convenhamos, enquanto somos a “pessoa quando casada”, eles são enérgicos e corajosos! Quem definiu isso? Somos nós que engordamos, nos enchemos de estrias, agüentamos nove meses de geração, os parimos, os amamentamos (deixando com orgulho nossos peitos caírem) e os agüentamos até que uma trouxa resolva se casar com eles, para enfim, transferimos o fardo a elas. E apesar disso tudo não somos por definição lingüística: “corajosas”. Enfim, não foi o dicionário que conseguiu me livrar de tantas dúvidas.
Tentei então fazer uma lista de coisas que eu achava que me tornavam mulher:
1. Ter útero, ovário, menstruação, hormônios, etc... Biologicamente é fácil definir.
2. Ter mais de 21 anos; ter feito sexo (com mais homens que minha mãe sonha, mas com um número infinitamente menor do que minha tia puritana imagina);
3. Ter emprego; ter contas; ser responsável pelos meus atos;
4. Ter TPM; ter que fazer papa Nicolau anualmente, ter que tomar pílulas;
5. Não gostar mais de Xuxa, Chaves e de brincar de bonecas (não sobra tempo!);
6. Não ter paciência de ficar só para beijar; só pensar em relacionamento sério e duradouro;
7. Pensar em comprar: bolsas, sapatos, roupas, perfumes... e ralar para pagar tudo sozinha;
8. Pensar em homens reais;
9. Pensar em casar com eles e ter filhos inteligentes.
10. Comprar camisinha na farmácia, teste de gravidez e KY.
11. Sair para jantar e rachar a conta; ir ao motel e rachar também!
12. Ligar para a amiga e falar do divórcio;
13. Não parar de pensar em celulite, estrias e no peso (que sempre é maior do que a gente desejaria);
14. Ser feminina; ser forte; ser corajosa; e ainda chorar quando ver “O casamento do meu melhor amigo”.
15. Querer ser mãe e nos dedicar aos filhos.
Poderia ter colocado mais um monte de itens, mas o sono me pegou e não pensei no assunto. Talvez porque não tenha me contentado, ou talvez pelo contrário. O fato é que naquele momento tudo aquilo não passava de neurose, ou de pura filosofia barata. Aquilo que não definimos, definido está em algum lugar, mas por mais que eu me pergunte nunca vou conseguir saber quando é que foi que me tornei mulher. Dormi e quando acordei no dia seguinte tinha tantas coisas reais para pensar, que acabei me esquecendo.
Duas semanas se passaram, e agora eu completava mais um ano de vida. Infelizmente cresci e mesmo que ainda não tenha definido o que é ser mulher, sei que já o sou.