Meia noite: rolo na cama e penso no relógio. Lembro que hoje não é mais domingo e que irei em 7 horas acordar, tomar meu banho, me pesar na maldita balança do banheiro – e verei o abuso do final de semana em quilos ganhos -, irei tomar meu café e partir para o trabalho. Então passarei a pensar na cara de coala da minha chefe e de seu humor sem graça, já imagino os comentários dela sobre o final de semana, sobre o quanto a segunda-feira a enche de energia e como o trabalho a entusiasma. Não há no mundo algo mais irritante que um Workaholic, às oito horas manhã, te desejando um bom dia! E antes que sucumba à vontade de responder rispidamente um “só se for para você” ou quem sabe um “vá à merda com seu bom dia” farei um aceno com a cabeça e pensarei na rodas novas que tenho comprar para meu carro.
Sou daquelas pessoas que só trabalham porque tem contas, e apesar de não ter errado de profissão e de gostar daquilo que faço, odeio ter que trabalhar. Eu me levanto, como já falei, às sete horas, mas só acordo mesmo depois das dez da manhã, por isso nas primeiras horas do dia sofro de mal-humor generalizado, que chamo simpaticamente sarcasmo matinal.
O porteiro do prédio sabe bem o que é isso, toda manhã, em seu uniforme de segurança de forró, ele atravessa meu caminho com seus sorrisos, bom dias e com aquele comentário maldoso sobre a vizinha do 203. Nos primeiros tempos tentei ser agradável e respondia ao “bom dia” verbalmente, depois comecei acenar com a cabeça, depois era um movimento labial parecido com um sorriso de canto, hoje me seguro para não mandar ele à merda também. No entanto, saio todos os dias com a mesma pergunta na cabeça: Quem é a vizinha do 203?
Meia noite e meia: preciso dormir. Rolo para o outro lado da cama e tento esquecer o porteiro sorridente. Tento não pensar em nada e decido ligar a tv, talvez o barulhinho e a falta de conteúdo interessante me dê sono, no entanto, é normalmente a falta de uma programação inteligente que me tira mais o sono. Por que não há programas interessantes nas madrugadas de segunda? Ou já que isso é inviável, por que não inventam um programa para pessoas que como eu que tem insônia? Sei lá, algo como a voz do Walmor Chagas contando ovelhas para a gente ou uma nova psedocelebridade (daquelas que são “descobertas” em reality shows) recitando cheia de emoção os nomes da lista telefônica. Como o mundo anda vazio de idéias!
Olho para o relógio já é mais de uma hora, vamos pense em nada, é simples, tem gente que passa a vida assim, vai tente. Olho para o outro lado, talvez tenha um calmantinho no criado mudo, salve a indústria farmacêutica! Abro a gaveta com uma esperança inútil própria do homem moderno viciado em fórmulas mágicas para tudo, infelizmente é sem consolo que me dou conta que não tenho calmantes, prozacs, ou qualquer outra droguinha que me faça dormir. Fiquei careta sem perceber, fazia anos que eu não precisava de nada disso, que dormir era apenas o ato mecânico e necessário de fechar os olhos sem pensar em nada durante 8 horas ininterruptas.
Uma e quarenta, resolvo ir até a cozinha, quem sabe um copo com água? Pego o copo e bebo água. Olho para meus pés e vejo minhas pantufas de bichinho e penso nos meus quase 30 anos e começo a me perguntar se há mais alguém no mundo que use pantufas além de mim e minha sobrinha de seis anos. Em que momento da vida, nós deixamos de usar pantufas por que são bonitinhas e quando começamos a usá-las para nos sentirmos jovens, engraçadas, descoladas, etc? Quando é que deixamos de pensar no sorriso bonito do vizinho e passamos a pensar na bunda e no plano de carreira dele?
Lembro sem querer do meu primeiro beijo, atrás do caminhão do Seu João, da minha amiga de infância me perguntando como era beijar e assim como se meu pensamento escorregasse lembro do meu primeiro namorado e da minha primeira dor de cotovelo. Da doce insegurança adolescente, de corações palpitantes e mãos frias. De quando ainda me perguntava se eu deveria ou não ir para cama com meu namorado e o que ele pensaria de mim se fizesse sexo com ele. Quando é que isso tudo ficou no passado? Quando parei de me preocupar com o que eles pensavam de mim e passei a pensar no que eu penso sobre eles?
Duas horas, volto para a cama e penso no Beto, o vizinho do 305. Ele não é bonito de encantar nem feio de assustar, às vezes é grosseiro e sua sinceridade é muitas vezes dispensável, mas é solteiro, tem seus 30 anos e tem uma vida normal, ou seja, tem emprego, contas, um irmão esquisito, um carro que precisa ser lavado, um gosto musical duvidoso, mas enfim, normal, nada de taras sexuais estranhas, síndromes raras, problemas familiares sérios, ex-esposa (ou esposa) e filhos. Ele, talvez, seria um cara legal para começar um romance. Quando é que a gente começa a pensar num possível romance e pára de se apaixonar instintivamente?
Já passam das três horas, e continuo sem pregar o olho, se eu conseguisse apenas desligar esse processo contínuo e suicida de pensamento frenético, talvez consiga dormir. Desligo a tv e ligo o rádio, uma música calma seria boa para relaxar. Pego o cd da Enya, escuto duas músicas e quando percebo estou desesperada procurando meus outros cds. Uma lista para dormir:
- Tom Jobim, não, muito intelectual, cheio de poesia, não é bom para dormir;
- Ana Carolina, não nem pensar, cult demais, faz a gente pensar;
- Seu Jorge, também não, a voz é muito bonita, fico viajando no som;
- Já sei: coletânea romântica de músicas italianas... definitivamente não, me faz chorar;
- Claro, como não pensei nisso, melhor desligar o rádio.
Por que eu não consigo apenas escutar uma música sem ficar pensando no seu conteúdo e na melodia? Quando é que deixei de apenas ouvir e passei a me envolver com a música de maneira intelectual? Lembrei das tantas danças da garrafa que dancei na adolescência e de como era apenas legal remexer sem pensar. Falando nisso quando é que minha bunda passou a ter celulite?
Três e meia meu corpo começa a implorar para que eu pare de pensar e feche os olhos. Durmo. Sem sonhos, sem pesadelos, apenas deixo meus olhos fecharem e se conservarem fechados. Como é fácil dormir quando não se há nada importante para pensar, quando a vida é simples e somos adultos!
Sou daquelas pessoas que só trabalham porque tem contas, e apesar de não ter errado de profissão e de gostar daquilo que faço, odeio ter que trabalhar. Eu me levanto, como já falei, às sete horas, mas só acordo mesmo depois das dez da manhã, por isso nas primeiras horas do dia sofro de mal-humor generalizado, que chamo simpaticamente sarcasmo matinal.
O porteiro do prédio sabe bem o que é isso, toda manhã, em seu uniforme de segurança de forró, ele atravessa meu caminho com seus sorrisos, bom dias e com aquele comentário maldoso sobre a vizinha do 203. Nos primeiros tempos tentei ser agradável e respondia ao “bom dia” verbalmente, depois comecei acenar com a cabeça, depois era um movimento labial parecido com um sorriso de canto, hoje me seguro para não mandar ele à merda também. No entanto, saio todos os dias com a mesma pergunta na cabeça: Quem é a vizinha do 203?
Meia noite e meia: preciso dormir. Rolo para o outro lado da cama e tento esquecer o porteiro sorridente. Tento não pensar em nada e decido ligar a tv, talvez o barulhinho e a falta de conteúdo interessante me dê sono, no entanto, é normalmente a falta de uma programação inteligente que me tira mais o sono. Por que não há programas interessantes nas madrugadas de segunda? Ou já que isso é inviável, por que não inventam um programa para pessoas que como eu que tem insônia? Sei lá, algo como a voz do Walmor Chagas contando ovelhas para a gente ou uma nova psedocelebridade (daquelas que são “descobertas” em reality shows) recitando cheia de emoção os nomes da lista telefônica. Como o mundo anda vazio de idéias!
Olho para o relógio já é mais de uma hora, vamos pense em nada, é simples, tem gente que passa a vida assim, vai tente. Olho para o outro lado, talvez tenha um calmantinho no criado mudo, salve a indústria farmacêutica! Abro a gaveta com uma esperança inútil própria do homem moderno viciado em fórmulas mágicas para tudo, infelizmente é sem consolo que me dou conta que não tenho calmantes, prozacs, ou qualquer outra droguinha que me faça dormir. Fiquei careta sem perceber, fazia anos que eu não precisava de nada disso, que dormir era apenas o ato mecânico e necessário de fechar os olhos sem pensar em nada durante 8 horas ininterruptas.
Uma e quarenta, resolvo ir até a cozinha, quem sabe um copo com água? Pego o copo e bebo água. Olho para meus pés e vejo minhas pantufas de bichinho e penso nos meus quase 30 anos e começo a me perguntar se há mais alguém no mundo que use pantufas além de mim e minha sobrinha de seis anos. Em que momento da vida, nós deixamos de usar pantufas por que são bonitinhas e quando começamos a usá-las para nos sentirmos jovens, engraçadas, descoladas, etc? Quando é que deixamos de pensar no sorriso bonito do vizinho e passamos a pensar na bunda e no plano de carreira dele?
Lembro sem querer do meu primeiro beijo, atrás do caminhão do Seu João, da minha amiga de infância me perguntando como era beijar e assim como se meu pensamento escorregasse lembro do meu primeiro namorado e da minha primeira dor de cotovelo. Da doce insegurança adolescente, de corações palpitantes e mãos frias. De quando ainda me perguntava se eu deveria ou não ir para cama com meu namorado e o que ele pensaria de mim se fizesse sexo com ele. Quando é que isso tudo ficou no passado? Quando parei de me preocupar com o que eles pensavam de mim e passei a pensar no que eu penso sobre eles?
Duas horas, volto para a cama e penso no Beto, o vizinho do 305. Ele não é bonito de encantar nem feio de assustar, às vezes é grosseiro e sua sinceridade é muitas vezes dispensável, mas é solteiro, tem seus 30 anos e tem uma vida normal, ou seja, tem emprego, contas, um irmão esquisito, um carro que precisa ser lavado, um gosto musical duvidoso, mas enfim, normal, nada de taras sexuais estranhas, síndromes raras, problemas familiares sérios, ex-esposa (ou esposa) e filhos. Ele, talvez, seria um cara legal para começar um romance. Quando é que a gente começa a pensar num possível romance e pára de se apaixonar instintivamente?
Já passam das três horas, e continuo sem pregar o olho, se eu conseguisse apenas desligar esse processo contínuo e suicida de pensamento frenético, talvez consiga dormir. Desligo a tv e ligo o rádio, uma música calma seria boa para relaxar. Pego o cd da Enya, escuto duas músicas e quando percebo estou desesperada procurando meus outros cds. Uma lista para dormir:
- Tom Jobim, não, muito intelectual, cheio de poesia, não é bom para dormir;
- Ana Carolina, não nem pensar, cult demais, faz a gente pensar;
- Seu Jorge, também não, a voz é muito bonita, fico viajando no som;
- Já sei: coletânea romântica de músicas italianas... definitivamente não, me faz chorar;
- Claro, como não pensei nisso, melhor desligar o rádio.
Por que eu não consigo apenas escutar uma música sem ficar pensando no seu conteúdo e na melodia? Quando é que deixei de apenas ouvir e passei a me envolver com a música de maneira intelectual? Lembrei das tantas danças da garrafa que dancei na adolescência e de como era apenas legal remexer sem pensar. Falando nisso quando é que minha bunda passou a ter celulite?
Três e meia meu corpo começa a implorar para que eu pare de pensar e feche os olhos. Durmo. Sem sonhos, sem pesadelos, apenas deixo meus olhos fecharem e se conservarem fechados. Como é fácil dormir quando não se há nada importante para pensar, quando a vida é simples e somos adultos!
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